Nudez e as redes sociais

Há 17 dias, uma de nossas fotos (vide abaixo) foi denunciada no facebook por conter nudez e resultou num bloqueio da minha conta por 30 dias. (É a quarta vez que isso acontece comigo e todas as vezes as fotos estavam longe do que se pode considerar conteúdo pornográfico.) A foto fazia parte de um convite para o lançamento do nosso livro Retratos pra Yayá, que contou com o apoio de mais de 300 pessoas numa campanha de crowdfunding. A mesma foto estava pendurada como minha foto de perfil por meses, o que nos faz descartar a hipótese de que foram os famosos algoritmos malvados que agiram contra nós. No final, não importa qual foi o motivo da denúncia feita, se alguém incomodou-se com um bumbum rechonchudo de um bebê ou sentiu dores de cotovelo (como sugeriram alguns dos comentários feitos), o que gostaríamos de discutir aqui é o autoritarismo das redes sociais em relação aos conteúdos que UMA empresa considera inadequados. 

Nunca pensamos na nudez infantil como um ato transgressor, como arte ou uma forma de chamar atenção. No nosso cotidiano tentamos não dispor as crianças às cenas de sexo, violência ou qualquer tipo de perversão, inclusive linguística, mas tratamos a nudez, tanto infantil como de adultos, com muita naturalidade. Na nossa percepção, o constrangimento causado pelo excesso de preocupação traz efeitos contrários e chama a atenção das crianças para questões com as quais ainda não sabem lidar pela falta de maturidade. Mandar uma menina de 3 anos fechar as pernas enquanto brinca totalmente desligada do mundo externo só pode ter efeitos maléficos: entre outros, o de pensar que algo como o que tem entre as pernas está errado ou então o da diferenciação, e por conseqüência, inferioridade em relação aos meninos que podem sentar à vontade sem nunca receber tal recado. Esse tipo de comportamento opressor frequentemente resulta em criar hábitos insanos em relação ao seu próprio corpo, extrema insatisfação com ele e até mesmo, a sexualização precoce.

Enfim, a questão que se coloca é a de que uma foto como essa é denunciada, retirada da rede e o seu autor é punido sem sequer poder dar uma explicação ou contextualizar o uso da imagem. Nenhuma corte ou tribunal são tão severos, afinal, a defesa é o direito do réu! Será que as redes são realmente sociais ou são redes totalitárias? Social, afinal, tem a ver com a sociedade - espaço de troca e diálogo; com socializar, isto é, conviver, inclusive com a diferença, compartilhar. Se a motivação é a proteção das crianças e dos "bons costumes", porque a veiculação (tanto nas redes como na TV, rádio) dos conteúdos em que as crianças sensualizam dançando, cantam músicas com letras vulgares e ofensivas, que exaltam a violência ou em que imitam o comportamento excessivamente vaidoso dos adultos não é proibida? 

Pensando bem, estamos participando de um espaço que não respeita as nossas escolhas; que não avalia individualmente caso a caso; que não permite qualquer tipo de questionamento ou defesa. (Os posts com comentário crítico à rede não podem ser impulsionados, sabiam?! ferindo assim o direito à livre expressão.) Vivemos na época da ditadura facebookiana! Uma ditadura com os dias contados, pois de uma coisa temos certeza: as redes sociais não vão determinar o conteúdo da nossa produção!  

P.S. Sejam bem-vindos ao blog, um espaço nosso, espaço livre. Quem quiser acompanhar o nosso trabalho, esse é o lugar mais adequado. Um lugar que enxerga a nudez como ela realmente deve ser vista, com naturalidade e sempre com um convite ao diálogo.